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O Brasil que sempre foi verde e amarelo decidiu mudar de cor

Quando o assunto é Brasil a primeira imagem que vem a memória são as festas populares, futebol, comidas típicas, pontos turísticos e tantas outras atividades que o país oferece, cercado de carisma e boa receptividade nas cores verde e amarela.

Mas você sabia que o Brasil além de todas as suas peculiaridades incluindo a de ser um país hospitaleiro também é conhecido como o país da “democracia  racial”? O conceito foi articulado na obra “Casa-Grande & Senzala”, publicada por Gilberto Freyre em 1933. Freyre argumentou que não havia categorias raciais rígidas no Brasil, em parte por causa da mistura genética da população entre os  brancos (Portugueses), negros (Africanos) e amarelos (Indigenas) ocorrida entre os séculos XVI ao XVII.

No último dia 3 de julho no Brasil, quando se comemorava o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, muitos brasileiros presenciaram uma manifestação de desigualdade racial que tomou conta das redes socias. A vítima de preconceito racial desta vez foi a repórter e apresentadora de metereologia da Rede Globo, Maria Júlia Coutinho. A Maju, como é carinhosamente chamada pelos colegas de trabalho recebeu diversas mensagens ofensivas por ter a pela negra, na página oficial da emissora, tais como:

O Brasil que sempre foi verde e amarelo decidiu mudar de corE tantos outros comentários cercados por deboches e discriminações raciais que ganharam inúmeros “likes” assim como respostas rápidas e intolerantes perate aos olhos dos que não julgam os serens humanos pela cor da pele, sendo ela qual for. A Globo respondeu às injúrias raciais com demonstrações de apoio e carinho à profissional e ressaltou ainda que as medidas cabivéis de investigações seriam tomadas.

Já a repórter durante a sua rotineira apresentação no horário nobre da emissora apenas ressaltou que todos estavam preocupados que ela estaria chorando pelos corredores, mas que não teriam que se preocupar porque já enfrenta o preconceito desde quando nasceu. Maju se mostrou confiante por saber de seu talento e valores profissionais. A repórter também espera que as investigações sejam tomadas, já que a discriminação racial no Brasil é considerada crime baseada na Lei nº 12.288, decretada em 20 de julho de 2010.

Mas agora eu me pergunto: e aquelas calúnias raciais contra negros no Brasil que nunca viraram notícias para serem resolvidas? Eu já sofri muitas delas por ser negra, e por sinal comentários maldosos assim como os enviados à repórter Maju. Não nasci em berço de ouro, mas consegui realizar o meu desejo profissional de ser repórter de TV no Brasil. Profissão que infelizmente ainda é vista por muitos como espaço somente para pessoas da pele branca.

Eu consegui me graduar vendendo chocolates trufados dentro do ônibus com destino à universidade. Foram quatro anos de batalha. Trabalhava durante o dia como operadora de caixa e todas as noites após a universidade quando eu chegava em casa ao redor da meia noite, fazia meus chocolates e ainda encontrava tempo para estudar. Dormia muito pouco, mas a realização profissional era meu objetivo maior.

O Brasil que sempre foi verde e amarelo decidiu mudar de cor
Eu fazendo reportagem

Confesso que chorei muitas vezes, sofri calada e pensei em desistir porque as mensalidades eram caras. Mas a fé, a minha persistência e a dedicação, além do apoio da minha família me fez uma réporter negra vencedora de todas as barreiras raciais que poderiam impedir os meus ideais. Fui a primeira dos meus outros quatro irmãos e primos a concluir uma faculdade. Orgulho para meus pais e meus familiares.

O Brasil que sempre foi verde e amarelo decidiu mudar de cor
No estúdio

Quando mencionei que sofri como a repórter Maju foi porque cheguei a ouvir muitos comentários desanimadores e piadinhas quando ainda estava cursando a faculdade. Como por exemplo: “seria mais fácil você segurar uma banana nas mãos do que o microfone”, me comparando com macacos. Mas os comentários maldosos não me impediram de trabalhar para a TV Opinião e a TV Claret (afiliada da TV Cultura) no interior de São Paulo.

O Brasil que sempre foi verde e amarelo decidiu mudar de cor
No campo

Atualmente estou fora das telinhas. Há cerca de quatro anos decidi vir morar em Chicago, com o objetivo de aprimorar os meus estudos e quem sabe um dia voltar a atuar nas emissoras de TV nos Estados Unidos. Pode parecer um sonho quase que impossível aos olhos de muitos, mas o que me faz acreditar na realização deste novo projeto de vida é que pelo menos na “Cidade do vento” repórteres NEGROS não são julgados pela cor da pele e sim pelo profissionalismo. Uma realidade que infelizmente no Brasil ainda precisa ser repensada.

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Ana Paula Gomes

Ana Paula Gomes Khouri was born in Sorocaba, São Paulo, and graduated in Social Communication - Journalism at University Methodist of Piracicaba. She worked for more than four years as a reporter for TV Opinão Araras and TV Claret (an affiliate of TV Cultura – São Paulo), in addition to radio broadcasting and online news writing. Gomes Khouri moved to Chicago in 2010 to improve her English, got married, and now has Chicago as her hometown. She is excited about the opportunity to work with social media and report on the Brazilian community in Chicago and other Midwestern cities, and she aspires in the future to earn a master’s degree in Journalism.

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