Vania Amaral: uma egbomi em Chicago

Malki Brown e Vania Amaral (foto por Ingrid França)

Malki Brown e Vania Amaral (foto por Ingrid França)

Vania Amaral é egbomi do Ilê Axé Kalé Bokun, terreiro de nação e tradição Ijexá localizado há mais de 70 anos em Plataforma, subúrbio ferroviário de Salvador. Vania está vindo a Los Angeles, Chicago, e outras metrópoles americanas há mais de 10 anos para propagar a cultura bahiana.

Tivemos a oportunidade de entrevistá-la recentemente na casa de Malki Brown, um Chicagoano que é seu afilhado e fundou recentemente a American Association of Brazilian Candomblé and Culture (Associação Americana de Candomblé e Cultura Brasileira). Confira abaixo alguns dos pontos altos da entrevista, em que Vania fala do seu trabalho, da importância de ter um compromisso com a fé, e de sua impressão dos americanos, entre outros assuntos.

Brasileiros no Meio-Oeste: Conte-nos sobre o trabalho que a senhora vem fazendo para propagar a cultura do candomblé nos Estados Unidos.

Vania Amaral: Eu vim para os Estados Unidos para trabalhar com o folclore. Conheci essa compnhia de dança (sediada em Los Angeles), que o nome é Viver Brasil. Os diretores, um é brasileiro e a outra é americana. Mas ela pesquisou anos a fio. Ela é apaixonada pela Bahia, por Salvador, pelas coisas da minha terra. Então ela pesquisou tudo, não so a religião mas a cultura bahiana. Porque pra mim a religião está dentro da cultura, porque está lá no brasil, na Bahia. Mas pra mim cultura é o modo de viver de um povo. E religião voce escolhe, é livre arbítrio. Porque não é todo mundo em Salvador, na Bahia, que é da religião de matriz africana que é chamada candomblé.

Então quando as pessoas falam em cultura e envolvem a religião de matriz africana, eu particularmente não gosto.  Porque religião, não é todo mundo na Bahia que é do candomblé, então eu não gosto dessa mistura. Pra mim é por essa mistura que não existe nos olhos de algumas pessoas o compromisso. Não vê a responsabilidade de a pessoa ser de uma religião – qualquer religião. Católica, cristã, o evangélico, o budista, o pessoal da tradição tanto iourubá quanto da tradição de ifá, da santeria. Porque as pessoas misturam a cultura de um povo com a religião de um pvo.

Brasileiros no Meio-Oeste: E na Bahia em particular tem essa coisa do sincretismo, de dizer que eu tenho meu santo católico mas tambem tenho meu orixá. Tem uma falta de compromisso com uma coisa ou outra.

Vania Amaral: Exatamante. Porque na verdade se eu digo que eu sou católica, eu tenho que ser praticante. Eu tenho que ter um compromisso de estar pelo menos uma vez por semana na igreja. O padre tem que me conhcer, que é o lider daquela igreja. Ele tem que saber que eu sou um membro daquela igreja, que eu escolhi uma igreja, que todo fim de semana, ou uma vez no mês eu vou na igreja rezar, participar do movimento religioso com outros adeptos. Então as pessoas dizem muito, “ah, eu sou catolico.” Não. Você foi batizado. Mas você não é catolico porque você não pratica. Você não tem o compromisso com essa religião.

Brasileiros no Meio-Oeste: Tem gente, seja baiano ou seja turista, que vai no terreiro por curiosidade, sem ter esse compromisso com a religião. A senhora considera isso uma falta de respeito, ou a senhora aprecia essa curiosidade das pessoas?

Vania Amaral: Não, é diferente. A curiosidade, é do ser humano, é valido. Eu acho válido qualquer pessoa ter a curiosidade de conhecer uma casa de candomblé, de conhecer uma festa pública pra orixá, porque as pessoas que vão na festa, ou conhecer a casa, elas não participam do preceito. Só participa do preceito essas pessoas que já tem iniciação, que já tem compromisso com a religião.

Então pra mim é válido, é importante as pessoas irem conhecer outras religiões. Mas eu acho que as pessoas tem que ter cuidado é na hora de se envolver. Porque não é pra agora, não é pra amanhã. É pra uma vida.

Written by Sergio Barreto

Brazilian-American editor, web developer and (occasional) event promoter. As founder and content director for this site, I keep an eye on what's wrong with Brazil, but what really makes my heart beat faster is sharing the exciting things happening in Brazilian tech, music, film, and other creative industries.

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